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Desenhos

'o próximo é a sério'

Não creio que o novo filme de Kathryn Bigelow, Detroit, sobreviva como um exemplo notável da docu-ficção no futuro. Não aponta novos caminhos, mas é pertinente, especialmente com Trump na Casa Branca, que se façam filmes assim, impregnados de americanidade. É exemplarmente concebido, muito competente, como desde The Hurt Locker é a obra de Bigelow; a realizadora usou o artifício da 'fuga da realidade' com muita inteligência, como 'um jogo' de brincar, para tecer a sua crítica e denúncia. Como pode, e não como pôde, isto acontecer, pergunta-nos ela a todo o instante, sem sequer dar o alarme de que está a glosar a realidade pura. Parece muito difícil de acreditar, tudo parece, neste filme. Sobretudo, para impor uma posição, escolher um lado, que é o único possível. Existem momentos de imaturidade - como também imagens sublimes de uma Primavera que sobrevive à ameaça permanente - neste sumo concentrado de acção e violência possessa. A moralidade que emprega na figura de Larry, do sonho ao subterrâneo sonho, retira-se ante a presença diabólica do anti-herói (o filme num estado extremo de catarse social); a câmara frenética que tem a ânsia estúpida de tudo filmar, quase uma omnipresença, acabando por dificultar o voyeurismo marcial de que o espectador se pressente fazer parte, e não quer. Torcemos para que tudo seja falso, para que se pense que, escrevendo umas palavras, é em outras que pensamos escrever; mas é o facto que vale... e daí não muda.

Trailer

Atestado de burrice

O título deste post dá para os dois lados. O que é dizer muito e suficiente. Chegamos a um ponto onde o épico toca o ridículo, ou misturam-se, assim: um ridículo épico.

Proíbam jogos de Corfebol e Badmínton, proíbam o sexo, proíbam todos os espaços de cultura, proíbam, menos a bola. A bola não; não vá nos aparecer um Rui Santos em cada canto de votação ensaiando um discurso em que se faz a apologia da bola enquanto metáfora perfeita dos reveses da vida, inclusive.

Ares iranianos

Descobertos. Quase que me apetece colocar este post sob o domínio da tag 'Inteligência Artificial'.

Retórica da arte-clímax

LM – Na história do cinema existe este conflito eterno entre arte, política e negócio. É interessante ver como o Roger consegue lidar tão bem com este frágil equilíbrio. Pode dizer-me qual é o seu segredo?
RC – Não lhe chamo um segredo, mas é reconhecer que o cinema é tanto uma arte como um negócio. Se pensares unicamente como uma forma de arte, poderás ter alguns problemas. Se pensares unicamente como um negócio, isso é pior. Estás condenado a fracassar. Porque é uma forma de arte. Uma das poucas em que negócio e arte se conjugam. É uma equação complicada de se resolver.

Nesta entrevista a Roger Corman, um clássico por si só, diz-se, bem, que o cinema [e as restantes artes] é tanto uma arte como um negócio. Porque os artistas não vivem sem dinheiro, nem estão fora de um sistema que dele precisa. É toda uma máquina.

Mas o que quero sublinhar (sublinhado exclusivamente meu) é outra ideia subjacente a esta, mais profunda. Tem que ver com a questão da verdade, da legitimação da arte enquanto resultado de uma pesquisa pessoal íntima. Excluindo os produtos que são pensados para o entretenimento, nú e cru - esses parasitas que se fazem passar por arte ou que nem sequer chegam a pensar nesse drible, alocando-se então no direito que têm a usar os meios de produção de um complexo saturado de performance - as artes, e o cinema, são pensados como, hoje? Fala mais alto a experiência subjectiva dos afectos, uma arte pessoal, um código, um autor no meio do caos, e o reconhecimento, hipotético, pelos pares, acontece de um modo que esse autor, e obra, não controlaram? Será que o mais importante continua a ser o radical da forma, esse despertar moderno, ou estamos a reunir, de novo, o conhecimento humano em proveito próprio, olhando de fora a originalidade?

Transcender-se

Desenhos, 2017

We Let it Rock... You Let it Roll

Os Avenged Sevenfold são uns rapazes rockeiros naturais da Califórnia. O ano passado editaram o seu mais recente trabalho, The Stage. Nunca, por nunca, os vou colocar ao nível das grandes mentes da música pop, ou mesmo entre as mais interessantes propostas da música rock contemporânea, não comecei a ouvir música ontem, mas a verdade é que não me é permitido ver The Stage como um álbum esquecível ou a rondar o nível habitual para uma banda deste género, com este percurso... The Stage é muito bom; não tenho receio em afirmá-lo. Os rapazes estão a amadurecer bem, e esperemos que The Stage não tenha sido uma excepção. O catálogo do rock pesado agradece adições destas. Escutem o primeiro single e, se gostarem, não hesitem em ouvir o resto do álbum.

«The Stage»

Num país de Sol, chove para sempre

Portugal é um país quase perfeito para sonhadores. Para se viver numa bolha. Por isso talvez tenhamos os melhores poetas a desbravar o espírito. Loucos, catatónicos, perturbados, densos.

E porquê?

Porque lá fora é demasiado ridículo.

Cadeiras que pensam

Quando vou ao cinema, sento-me para pensar. Quero estar a pensar sempre. O bom cinema é um forte estimulante. As imagens têm de me fazer pensar, sobre elas próprias, sobre a mensagem e teoria implícita que está na cadeia de imagens que compõem o filme, e agradeço, mas, em primeiro lugar, têm de conseguir abstrair-me para 'o outro lado da vida', como disse Leos Carax sardonicamente a propósito da merdúcia de um prémio que ganhou em terrenos de Hollywood. Este outro lado da vida pode colocar em xeque tudo o que pensava antes, como pensava, ou confirmar o que penso agora.

Um Inferno de Salvadores 2

o poeta é sempre o straight man   /   escalda-me o olhar
na sua vaudeville épica   /   dessa timidez
reescreve a sua história
quando percebe que o amor é guerra
e, por norma
a loucura desagua na ponta dos dedos

um poeta-sentido é um jogo que nunca se perde
onde há impossíveis aparições e inimigos para sempre
em troca da paz temporária dessa virginal terra:

ombro que é roda de lágrima,
raio que é compasso que marca a matéria
a queda -
antes dela houve um equilíbrio
um espelho onde se reflectiu a biblioteca inteira

até
que explodimos
de um ponto ínfimo
e o que acontece aqui, neste poema,
é original irrepetível para sempre
nunca aconteceu
nem irá repetir-se

Um filme onde adolescentes normais são adolescentes normais

Em Sangailes Vasara (2015) não há nada a não ser uma metáfora. Simples, bela e coerente, mas que é ofuscada pelas decorações da narrativa, simplista e vazada pelos clichés do género. Ainda que a forma, sempre tocada pela harmonia, descreva um círculo onde um excesso de imagens sensuais e eróticas povoam noventa minutos de filme, a sua linearidade e o pouco profundo estudo dos personagens, levam a obra de Alante Kavaite excusivamente para terrenos sensitivos, num à flor da pele tedioso.

Trailer

Esperar-se

Desenhos, 2017

Dirão que isto era a idade da parvalheira

Queria acrescentar uma coisinha a estes três comentários ao post no Ouriquense. O que quero acrescentar na discussão é isto, bem simples de entender: e a crítica de arte não será, pelo seu lado, outra arte? Muito se fala de que o crítico é um artista falhado. Pois eu acho que não. Existem críticos e texto ensaístico que é bem melhor do que a própria obra e autor da obra. Que coisas que na origem não estão lá, nem como materialidade nem como intenção. Exemplos não faltarão.

E porquê? Porque quem cria sabe que lhe escapa muita coisa da sala de controlo. Todos aqueles botões, toda a vida... Sim, na arte há uma sala onde se controla a criação - e penso que o futuro da arte está mesmo aí, em mostrar a sala, ou seja, o livro dentro do livro, o filme dentro do filme, todos esses diálogos metafísicos que começaram a aparecer (bem, até o Dom Quixote tem) em bom número nas últimas décadas de uma forma mais sistemática, mas levados a outros extremos... já não é o livro dentro do livro, mas outras experiências mais alucinadas, gozando com essa dimensão ilusória da arte... sem prejuízo da leitura, pois estamos todos muito avançados, e cada vez mais estaremos na direcção da luminosidade, de uma luz lancinante, furiosa e sedenta de novos saberes e experiências desse conhecimento. Que dirão os futuros deste tempo que nos calhou viver?