Planos para as férias

Comprar umas dezenas de marcadores, aguarelas, papel aguarela de dimensão generosa e quantidade idem. Colocar folhas em branco na frente. Desenhar formas geométricas aleatórias e, depois de as digitalizar, colorir no photoshop. Passo essas imagens digitais para o smartphone. Uma vez lá, processo-as com uma app que descobri recentemente, que cria uns efeitos-distorção bem interessantes. Chama-se Glitcher e a minha imagem de perfil veio de lá, por exemplo. Imprimo, passo na mesa de luz para o papel aguarela. Pinto, com marcador e aguarela.

Muito mau

Dunkirk é inenarravelmente mau filme. Como, aliás, a obra de Christopher Nolan, pauta-se no mesmo nível. Mas Dunkirk talvez seja o pior entre todos. Não pensa: prime o botão do automático. Não acontecem imagens: monta um espectáculo de estilo. É a deterioração completa do neurónio que ainda tinha.

Ou por outra, como filme é de um preciosismo técnico invejável. De cinema tem nada. Absolutamente nada. É, ainda assim, de louvar que o tipo tenha saído das «profundezas» da mente - ou do seu próprio ego - que fizeram os pindéricos Inception e Interstellar, para uma coisa mais ligeira [no pior sentido], mais sopeiro, tipo híbrido entre Mel Gibson e Spielberg, de homenagem à resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Heróis, pátria, etc, tudo filmado como se uma fábrica de engenhos explosivos tivesse explodido. Não há sensibilidade, paciência, sumo. O compasso criativo traçou tudo perfeito às três - ou milhares de - pancadas...

Esta crítica no À Pala de Walsh é melhor do que o filme. Não é realização, mas logística. Tudo dito. Lá «fora», conclamam este piça-fria do Nolan como génio e brindam à nova masterpiece. Risos.

Obrigado

Acabei de conhecer a música de Somi no Canal 180.

Como falar com a vida quando estamos vivos

Meus amigos, o livro, baseado no conto de Neil Gaiman, Como Falar Com Raparigas em Festas, é a melhor obra que li este ano, e duvido muito que seja ultrapassada por outra qualquer. Sobre o background da obra, procurem internet fora. Na interpretação, cada qual com a sua, mas se isto não é o tudo em pouco dito, não é nada. Ou seja, a essência da vida, da arte... Além disso, o trabalho de desenho, de uns artistas brasileiros, é fantástico...

Jorge Luís Borges estava certo em condenar os maratonistas literários.

Cults intocáveis, a única etiqueta de arte a que é um orgulho pertencer

Maria Gabriela Llansol, Peter Greenaway, The Velvet Underground, e um monte de etcs.

Pensei que o livro tinha desaparecido, e eis que um trecho saiu a voar

«(...) Não. Não reconheço deveres para com o homem que me obrigou a viver estes dez anos no manicómio da sua cupidez, perversão e lascívia. O lume na grade da lareira estava fraco, mas eu não dei importância. Outro fogo ardia no meu coração. Fiquei até tarde sentada na sala fria, cuidando dele, alimentando-o, até que as faúlhas inflamaram a mecha do meu ressentimento, e foi como se estivesse sentada dentro de uma fornalha.»

Neste pequeno trecho, sensivelmente a metade de Propriedade, de Valerie Martin, o livro voa. Desprende-se daquela chatice descritiva de espaços e acções de personagens, de que o livro é bem composto, que não emendam em nenhum propósito literário maior. Curioso como Valerie Martin consegue, no trecho, um momento sublime feito com o seu maior handicap. Propriedade é um livro sem um escopo sublinhado, e a sua maior vantagem está na forma narrativa minimalista, a contornar os espantalhos de um tempo que a escritora não viveu, e por isso imagina. A heroína é uma personagem forte. E parabéns à audácia de Martin em construir um romance histórico sem a pesquisa mais ou menos científica de artefactos para emoldurar a obra. Nem parece gente do início do século XIX.

Planeta Sexo

Era assim que o nosso planeta se deveria chamar.

A mais pesada música alguma vez criada

Lembro-me nitidamente quando comecei a ouvir rock mais pesado. E de sentir-me profundamente incomodado pelo som agudo de um címbalo. Aquele tinir destacado, usado geralmente no heavy metal, em composições já de si densas. Ainda hoje, aquele címbalo percutido leva os meus sentidos a uma espécie de catatonia, ou blackout racional. Gostava de conseguir identificar qual a música mais pesada do rock - e pelo meu gosto, sei de umas quantas - mas nem só de um turbilhão eléctrico de riffs vive o rock. Aliás, para mim, rock pesado está num bom riff, não num pesado riff, junto de uma percussão insana, arranjos delirantes, vocais limpos mas dementes cantando o fim do mundo ou o sujo. Tem de haver um toque de estranheza sem limite. Detesto aquela paisagem hiper-técnica que muito se escuta música alternativa fora, provocando uma tormenta putrefacta de sons: domínios dos black, noise, death, doom...

Passemos aos nomeados - suponho que não haverá gala de entrega de prémios, mas estais convidados a acrescentar nomeados de peso a esta lista que começa com...:

«Painkiller», Judas Priest

Mostrar o rabo em lugares bonitos é uma nova web-moda

https://www.instagram.com/cheekyexploits/

Se eu tivesse, pelo menos, algum do espírito trendsetter que pulula por aí, e esta moda só a permitia com fotos de mulheres. Cu de mulher é igual a desejo, beleza. Cu de homem é grosseria. Infelizmente, eu a ditar tendências, só mesmo as minhas.

Uma história de amor em três frases

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.»

Se a arte nos salva? Sim

No outro dia vi Drowning by Numbers, excelente filme-comédia do deus Peter Greenaway. Fiquei com o filme. Para sempre. Que peça de arte magnífica.

Ingratidão

Muito poucas vezes pensamos, e elogiamos, o reverso. Embora o reverso seja tão importante como a boa-aventurança para o nosso crescimento, para o acrisolar da alma. É na alteridade que o pensamento, e a vida, se tornam férteis. Certa vez, na televisão, e a propósito de alguma reportagem versando não sei o quê, uma senhora com rosto danado e mal-amado repetia, à pergunta sobre o que achava da vida, Isto não presta para nada. Ao que o jornalista, surpreendido pela resposta nada usual, pergunta de novo com uma nuance 'mas', e ela, enfática e melancólica, Para nada. Assim, sem pudores, poeiras, ou medos de um castigo divino.

Nos piores momentos, aquelas palavras da senhora acompanham-me, afundando-me. Também temos o direito a ser ingratos, inquisitivos, também temos o direito a comprar um Golden Pass infernal. Nós, mais do que ninguém.

Tenho uma hora para fazer um post

Falar do quê? A realidade entedia-me até à morte. Ao meu lado tenho um livro com uma das capas mais bonitas na minha biblioteca. Depois desta hora passar, vou ler mais um pouco de Propriedade, de Valerie Martin, e então vou para o quarto, repousar.
   Sobre o livro de Valerie Martin, haverá muito a dizer. Mas o que, a uma primeira alunagem, me despertou foi o pensamento, analítico e puro, sobre uma questão interessante: por onde se começa a escrever.
   O livro de Martin começa com esta frase: Isto não tem fim. Quem se der ao desprazer de ler a sinopse e críticas ao livro antes de concluir a leitura, o que nunca faço, vê naquela frase a possível falta de imaginação de Martin. A falta de imaginação pode ser muito boa, desde que compensada com elementos estéticos que façam esquecer a linearidade possível da narrativa.

Da transcendência na pintura moderna


Rauschenberg

A pintura, haveremos de o descobrir, tornou-se na arte essência-prima. Tudo começa por uma imagem, por uma visão. Difusa, sedutora; não é um mandato técnico que, sobre as mitologias do que aparece-não aparece, se revela a síntese de um tempo ou estado emotivo.

A literatura, por sua conta, é o gesto mecânico de reproduzir essa visão numa metáfora através destes símbolos-palavra. Mexe no âmago, mas só sob certas condições: ensina-nos que não existem histórias únicas.

A música é uma arte que se revela à posteriori, e, embora tenha uma qualidade suprema, a imaterialidade, que nenhuma das outras artes possui, não deixa de ser remetida ao poder sedutor das imagens: e eis que nos surge a pintura, de novo, triunfante.

No desenho, e especialmente com o modernismo na arte, a humanidade transcendeu toda a linguagem. A linguagem literária, musical, até a pictórica. É óbvio que o defeito das imagens é serem lidas: como acontece na fotografia e no cinema, estão ali para ler. Estão consignadas ao domínio literário, a esse espaço clássico da narrativa. No desenho não. O desenho é algo que se liga à imaginação pura, pré-existência, alma, além de uma série de mecanismos na psique e personalidade do artista que nos são, espectadores, impossíveis de descodificar.

Quando tudo era giro

Agora é cultura. Mas já foi contracultura. Eu garanto-vos que fui o primeiro, enquanto todos na faixa etária 20-25 andavam com a mania do gira, a usar o bonita. Hoje, tudo é bonito. Até as mulheres bonitas já não são giras. São bonitas, como deve ser.


[Eros, Wong Kar-wai, Soderbergh, Antonioni - 2004]

Mais umas histórias simples

Paterson [2016] não tem a radicalidade da forma de The Straight Story [1999], nem, por muito que o queiramos ler nas entrelinhas de uma estória feita do underdog que se sente inconformado, o arrojo e rebeldia poética de Henry Fool [1997], mas o novo filme de Jarmusch partilha muitas das qualidades com aqueles filmes de Lynch e Hal Hartley. No despojo visual-narrativo, na carta esperançosa que se dirige à poesia enquanto salvação de uma classe operária que sonha um futuro.